Redes Sociais

Nunca fui muito de redes sociais. Tive contas privadas no Facebook e no Instagram onde publicava uma ou outra fotografia, mas nunca perdi muito tempo com a minha vida digital, nem com a dos meus amigos. Até conhecer o Booktube e o Bookstagram.
Quando me apercebi de que existiam estas duas comunidades de leitores que publicam sobre os seus livros preferidos, fiquei encantada. Podia finalmente “falar” com pessoas cujos interesses eram iguais ao meus, partilhar opiniões, descobrir novos autores e, quem sabe, até fazer alguns amigos. Decidi, então, criar uma segunda conta (pública) no Instagram dedicada unicamente às minhas leituras. No início foi tudo muito subtil. Publicava poucas vezes (sempre que lia um livro), tinha poucos seguidores, e era capaz de passar dias sem entrar na aplicação.
Comecei a notar uma diferença nos meus hábitos quando surgiu a funcionalidade das stories, e quando comecei a seguir e a ser seguida por pessoas com gostos semelhantes aos meus. A partir daí, a importância que passei a dar à minha conta do Bookstagram foi aumentando. Tal como tudo o resto. O meu número de seguidores aumentou, o meu tempo passado na aplicação aumentou, o meu dinheiro gasto em livros aumentou, a minha TBR aumentou. O que não parecia aumentar, no entanto, era o tempo que eu dedicava à leitura…
Inevitavelmente, estes hábitos pioraram com a pandemia. Como tivemos de passar dois confinamentos com crianças pequenas em casa, as redes sociais eram uma espécie de escape para o difícil período que estávamos a viver. Era bom poder ver os outros a ler e a aproveitar o tempo (confinados ou não), e saber que ainda havia uma réstia de vida normal lá fora. E como estas vidas parecem interessantíssimas, as minhas compras online dispararam ao ponto de eu ter vergonha de mencionar o número de livros que tenho por ler nas minhas estantes. Alguns deles provavelmente não teria comprado caso não tivesse tido um momento de fraqueza e comparação.
Fraqueza. Era precisamente isso que eu sentia. Sentia-me fraca perante o meu telefone e perante os outros. Parecia incapaz de passar cinco minutos sem ir ao Instagram. A primeira coisa que fazia ao acordar era verificar o Instagram e a última coisa que fazia ao deitar era verificar o Instagram. Às vezes até me zangava com os meus filhos por eles não me darem uns minutos para publicar qualquer coisa no Instagram… E não parecia certo. Não parecia certo. E eu refletia: a minha vida não é desinteressante ao ponto de eu estar sempre a querer fugir dela. E que me interessa a vida dos outros? Que me interessa o que os outros lêem? Pessoas com quem eu nunca falei, que nunca vi, e que provavelmente nunca chegarei a conhecer? Pessoas que só interagem comigo porque fazem like numa fotografia ou vêem a minha story… Nem sequer comentam. É para as agradar que tenho Instagram? Eu nem simpatizo com o Sr. Zuckerberg… Perdia noites nisto.
Tais exames de consciência começaram a fazer com que eu pensasse em afastar-me das redes sociais. Mas não sabia como, o que me assustava. Decidi então comprar dois livros: Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now (2018), de Jaron Lanier; e Digital Minimalism (2019), de Cal Newport. O primeiro explica como funcionam as redes sociais e os algoritmos que nos viciam, o segundo abre as portas para um novo conceito chamado minimalismo digital, ensinando não só a usar as redes sociais de forma mais responsável e consciente, como também a substitui-las por actividades mais benéficas e significativas. Creio que um complementa o outro.
Após estas leituras, e a visualização de testemunhos e documentários como o The Social Dilemma (2020), da Netflix (disponível no Youtube), a minha decisão foi ganhando forma. Primeiro apaguei a aplicação do telefone e depois fui pensando em apagar definitivamente as minhas contas. O meu objetivo era voltar a uma vida não digital. Uma vida mais autêntica, em que o meu primeiro pensamento ao entrar numa livraria ou após ler um livro, não fosse publicá-lo imediatamente na Internet. Queria voltar a fazer as coisas por mim e para mim. Queria ser eu a descobrir novos livros, queria ser eu a ler ao meu ritmo, queria ser eu a dar a aprovação sem me importar se os outros gostam ou não.
Mas não é fácil. Principalmente para quem está habituado a ter um ecrã sempre por perto. Nos primeiros dias o silêncio é uma benção, mas, depois, vamos sentindo falta do que gostávamos, e é nesse momento que temos de ser fortes. Muito fortes. Temos de voltar a pensar nas razões que nos levaram a apagar as contas e naquilo que valorizamos na nossa “nova” vida. A calma, a autenticidade, a genuinidade, a reserva, o silêncio, a empatia. Estarmos presentes no momento e termos consciência disso. Fazermos as coisas para nós e não para aprovação alheia. Tirarmos uma fotografia para mais tarde recordar, e não para mostrar ao mundo. Apreciar todos os sítios pelos quais passamos, ainda que não sejam “Instagramáveis.” Acordar e ir às apalpadelas até à casa de banho, apagar a luz após lermos o nosso livro. Na minha opinião, tudo isto supera a vaidade e a curiosidade que sentimos por pessoas com quem simpatizamos, mas que nunca chegaremos a conhecer.
Por isso, e também após a leitura destes dois livros que recomendo vivamente a todos os que tenham redes sociais, posso dizer que estou novamente a tentar não ser de redes sociais (só o Goodreads que não vicia ninguém). Apaguei as minhas contas, mas só daqui a um mês será definitivo. Já não quero perder tempo com vidas digitais, anúncios ou páginas sugeridas. Quero dar um bom exemplo aos meus filhos e continuar a falar sobre livros no meu blogue, um projeto com treze anos que tanto prezo. Dizem que o “desmame” completo ocorre passados três meses. Não parece muito, pois não? Até lá, é tentar viver autenticamente e voltar às origens.








