Literatura Norte-Americana

Redes Sociais

Nunca fui muito de redes sociais. Tive contas privadas no Facebook e no Instagram onde publicava uma ou outra fotografia, mas nunca perdi muito tempo com a minha vida digital, nem com a dos meus amigos. Até conhecer o Booktube e o Bookstagram.

Quando me apercebi de que existiam estas duas comunidades de leitores que publicam sobre os seus livros preferidos, fiquei encantada. Podia finalmente “falar” com pessoas cujos interesses eram iguais ao meus, partilhar opiniões, descobrir novos autores e, quem sabe, até fazer alguns amigos. Decidi, então, criar uma segunda conta (pública) no Instagram dedicada unicamente às minhas leituras. No início foi tudo muito subtil. Publicava poucas vezes (sempre que lia um livro), tinha poucos seguidores, e era capaz de passar dias sem entrar na aplicação.

Comecei a notar uma diferença nos meus hábitos quando surgiu a funcionalidade das stories, e quando comecei a seguir e a ser seguida por pessoas com gostos semelhantes aos meus. A partir daí, a importância que passei a dar à minha conta do Bookstagram foi aumentando. Tal como tudo o resto. O meu número de seguidores aumentou, o meu tempo passado na aplicação aumentou, o meu dinheiro gasto em livros aumentou, a minha TBR aumentou. O que não parecia aumentar, no entanto, era o tempo que eu dedicava à leitura…

Inevitavelmente, estes hábitos pioraram com a pandemia. Como tivemos de passar dois confinamentos com crianças pequenas em casa, as redes sociais eram uma espécie de escape para o difícil período que estávamos a viver. Era bom poder ver os outros a ler e a aproveitar o tempo (confinados ou não), e saber que ainda havia uma réstia de vida normal lá fora. E como estas vidas parecem interessantíssimas, as minhas compras online dispararam ao ponto de eu ter vergonha de mencionar o número de livros que tenho por ler nas minhas estantes. Alguns deles provavelmente não teria comprado caso não tivesse tido um momento de fraqueza e comparação.

Fraqueza. Era precisamente isso que eu sentia. Sentia-me fraca perante o meu telefone e perante os outros. Parecia incapaz de passar cinco minutos sem ir ao Instagram. A primeira coisa que fazia ao acordar era verificar o Instagram e a última coisa que fazia ao deitar era verificar o Instagram. Às vezes até me zangava com os meus filhos por eles não me darem uns minutos para publicar qualquer coisa no Instagram… E não parecia certo. Não parecia certo. E eu refletia: a minha vida não é desinteressante ao ponto de eu estar sempre a querer fugir dela. E que me interessa a vida dos outros? Que me interessa o que os outros lêem? Pessoas com quem eu nunca falei, que nunca vi, e que provavelmente nunca chegarei a conhecer? Pessoas que só interagem comigo porque fazem like numa fotografia ou vêem a minha story… Nem sequer comentam. É para as agradar que tenho Instagram? Eu nem simpatizo com o Sr. Zuckerberg… Perdia noites nisto.

Tais exames de consciência começaram a fazer com que eu pensasse em afastar-me das redes sociais. Mas não sabia como, o que me assustava. Decidi então comprar dois livros: Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now (2018), de Jaron Lanier; e Digital Minimalism (2019), de Cal Newport. O primeiro explica como funcionam as redes sociais e os algoritmos que nos viciam, o segundo abre as portas para um novo conceito chamado minimalismo digital, ensinando não só a usar as redes sociais de forma mais responsável e consciente, como também a substitui-las por actividades mais benéficas e significativas. Creio que um complementa o outro.

Após estas leituras, e a visualização de testemunhos e documentários como o The Social Dilemma (2020), da Netflix (disponível no Youtube), a minha decisão foi ganhando forma. Primeiro apaguei a aplicação do telefone e depois fui pensando em apagar definitivamente as minhas contas. O meu objetivo era voltar a uma vida não digital. Uma vida mais autêntica, em que o meu primeiro pensamento ao entrar numa livraria ou após ler um livro, não fosse publicá-lo imediatamente na Internet. Queria voltar a fazer as coisas por mim e para mim. Queria ser eu a descobrir novos livros, queria ser eu a ler ao meu ritmo, queria ser eu a dar a aprovação sem me importar se os outros gostam ou não.

Mas não é fácil. Principalmente para quem está habituado a ter um ecrã sempre por perto. Nos primeiros dias o silêncio é uma benção, mas, depois, vamos sentindo falta do que gostávamos, e é nesse momento que temos de ser fortes. Muito fortes. Temos de voltar a pensar nas razões que nos levaram a apagar as contas e naquilo que valorizamos na nossa “nova” vida. A calma, a autenticidade, a genuinidade, a reserva, o silêncio, a empatia. Estarmos presentes no momento e termos consciência disso. Fazermos as coisas para nós e não para aprovação alheia. Tirarmos uma fotografia para mais tarde recordar, e não para mostrar ao mundo. Apreciar todos os sítios pelos quais passamos, ainda que não sejam “Instagramáveis.” Acordar e ir às apalpadelas até à casa de banho, apagar a luz após lermos o nosso livro. Na minha opinião, tudo isto supera a vaidade e a curiosidade que sentimos por pessoas com quem simpatizamos, mas que nunca chegaremos a conhecer.

Por isso, e também após a leitura destes dois livros que recomendo vivamente a todos os que tenham redes sociais, posso dizer que estou novamente a tentar não ser de redes sociais (só o Goodreads que não vicia ninguém). Apaguei as minhas contas, mas só daqui a um mês será definitivo. Já não quero perder tempo com vidas digitais, anúncios ou páginas sugeridas. Quero dar um bom exemplo aos meus filhos e continuar a falar sobre livros no meu blogue, um projeto com treze anos que tanto prezo. Dizem que o “desmame” completo ocorre passados três meses. Não parece muito, pois não? Até lá, é tentar viver autenticamente e voltar às origens.

Literatura Norte-Americana

O Meu Inimigo Mortal

Conheci Willa Cather através das redes sociais. Nunca tinha ouvido falar dela e, numa pesquisa mais pormenorizada, descobri que foi uma importante escritora americana do início do século XX, que concentrou a sua obra sobretudo no tema dos pioneiros e no da sociedade norte-americana que entretanto se estava a formar.

No seu pequeno O Meu Inimigo Mortal (1926), Cather narra a história de Myra, uma jovem de boas famílias que, ao contrário do desejo do tio, decide trocar o seu bem-estar pelo amor ao fugir com Oswald, um rapaz pobre que a arrebata. Voltamos a encontrar o casal 25 anos depois num hotel barato numa zona artística de Nova Iorque, numa situação precária, decadente e infeliz.

Apesar de curta, esta novela é bastante curiosa porque, a meu ver, trata do tema do arrependimento. Na sua juventude, Myra achava que sabia o que era melhor para si e, após enfrentar tudo e todos, consegue levar a sua vontade avante para se dar conta, anos mais tarde, de que cometera um erro monumental. Myra não gosta de ser pobre e culpa o marido devotado pela vida que tem e que, no fundo, ela escolheu. É uma mulher infeliz e torna a vida dos que a rodeiam igualmente infeliz.

Gostei deste livro embora o tenha achado parecido com a primeira obra que li de Cather, Uma Mulher Perdida (1923). O tema é quase idêntico: mulheres jovens, casadas com homens que não amam e aparentemente presas a uma vida dura que não as satisfaz. O seu destino é quase uma fatalidade, o que pode não apenas ser frustrante para elas, mas também para o leitor que dá consigo a pensar: “Mas porque é que elas não fazem nada para alterar a sua condição?”

Literatura Europeia · Literatura Francesa

Germinal

Émile Zola chamou-me particularmente a atenção quando li o seu maravilhoso O Paraíso das Damas (1883), há uns anos. Decidi então continuar a ler a sua obra, razão pela qual se tornou obrigatório ler aquela que é considerada a sua obra-prima.

Germinal (1885) seria escrito dois anos depois e faria parte, claro está, da série Les Rougon-Macquart, 20 livros dedicados a dois veios diferentes de uma mesma família do século XIX, um deles pertencente à classe alta, outro à classe baixa. Neste livro em particular, a personagem principal é Etienne Lantier, descendente direto da história de L’Assommoir (1887).

Etienne é um jovem mecânico do norte de França que, ao ver-se sem trabalho, decide arranjar emprego numa mina das redondezas. O que o espera é algo que o abala profundamente. Os mineiros vivem mal, num cortiço disponibilizado pela própria empresa, e têm péssimas condições de trabalho, não ganhando o suficiente para conseguirem sobreviver. Esta exploração impressiona tanto Étienne que ele decide aprofundar os seus conhecimentos sobre uma teoria recente que andava a circular pela Europa: o comunismo. Juntou-se a um emigrante russo, também ele trabalhador na mina, e com esta troca de ideias resolveu incitar os companheiros à greve. Ora, o resultado foi desastroso. Apesar de os mineiros em peso, e em desespero, terem alinhado na novidade, encontraram-se ainda em piores circunstâncias do que anteriormente por já não ganharem nem o pouco que dantes levavam para casa. Como consequência, o pior da sua humanidade veio ao de cima e foram praticados actos quase indescritíveis.

Para escrever Germinal, durante três meses Zola trabalhou numa mina e viveu perto dos mineiros de modo a conseguir descrever o que ali se passava. E como o descreve! O leitor fica com uma noção muito nítida de como era ser mineiro e pobre (para não dizer miserável) no século XIX, onde conceitos como segurança social, higiene e segurança no trabalho, horário de trabalho e de descanso, não existiam. Era uma exploração não só por dinheiro, mas também por ser simplesmente assim que as coisas se faziam naquela altura. Realidade que, gostando-se ou não, as ideias Marxistas vieram alterar.

Gostei muito de Germinal. Apesar de Zola ser um escritor demorado e levar o seu tempo a contar a história, fá-lo com muita técnica e clareza, pelo que não parece aborrecido nem maçudo. Os seus livros são extensos porque ele não quer deixar nenhum pormenor de fora, o que, na minha opinião, só enriquece a experiência de leitura. Recomendo vivamente este livro e, claro, prosseguirei com os livros do autor. O próximo da lista é Nana (1880).

Literatura Britânica

Mrs. Dalloway

Quem tem medo de Virginia Woolf? Eu tinha. Aventurar-me nos seus livros sempre me pareceu intimidante, porém, como muitas pessoas aconselham as suas obras, resolvi que chegara finalmente a hora de atirar-me de cabeça em Mrs. Dalloway (1925).

Mrs. Dalloway, esta personagem tão conhecida da literatura, é uma senhora de 50 anos, que vive na Londres do pós I Guerra Mundial. Tem uma vida privilegiada, é casada com um homem endinheirado e influente, e tem uma filha jovem e bonita em idade casadoira. Contudo, Clarrissa não é feliz. Este sentimento de frustração resurge quando reaparece na sua vida Peter Walsh, o seu amor de adolescência. Clarissa declinou o seu pedido de casamento por achar que Peter era demasiado compulsivo e dominador. Ao casar com Richard Dalloway, ela adquire a desejada liberdade, mas não a chama que sentia com Peter.

O próprio Peter nunca se refez desta rejeição. Anda perdido, sem eira nem beira, casa aqui, descasa ali, não quer ter filhos e sente que não pertence a lugar nenhum. Esta é, aliás, a tónica do romance. Quase todas as personagens estão perdidas ou infelizes, e parecem não saber como resolver a sua situação. Não nos podemos esquecer de que Mrs. Dalloway foi escrito no período entre guerras, ou seja, num tempo em que a Europa estava a recuperar, em que as famílias se estavam a reencontrar e em que os hábitos e costumes conheceram muitas mudanças. Uma época de incerteza em relação ao passado e ao futuro.

Uma da personagens mais interessantes do livro é Septimus Warren Smith, um jovem que combateu na Grande Guerra e que ficou altamente traumatizado pelo que lá viveu. Este rapaz vai funcionar como um Duplo de Clarissa, ou seja, é ele quem vai exteriorizar, através da sua história e das suas ações, tudo o que Clarissa sente ao longo do romance. Eles não se conhecem nem nunca se cruzam, todavia os seus desfechos estão interligados e dão o mote para o final.

É patente o desabafo e a projeção de Virginia Woolf em Mrs. Dalloway. Sabemos que a escritora sofria de depressão e doença bipolar, e que a I Grande Guerra teve um grande impacto na sua sensibilidade. Uma das razões pelas quais se suicidou em 1941 foi precisamente a II Guerra Mundial e a tragédia que esta traria.

Ao longo da leitura deste livro não pude deixar de pensar em como o título não corresponde inteiramente à história. Não é só sobre Mrs. Dalloway que lemos, é sobre tantas outras personagens que também nos ocupam durante muito tempo com os seus choques e comoções. Sabe-se hoje que a autora queria dar ao romance o título de As Horas, o qual acho mais adequado.

Gostei muito deste livro. Ao início não foi fácil concentrar-me na forma de como está escrito (fluxo de consciência), no entanto, uma vez imersa, pareceu-me acessível.

Já percebi que Virginia Woolf é uma escritora que exige a nossa máxima atenção, mas também já percebi que o fruto desse requerimento é vantajoso porque nos proporciona um saber e uma empatia que nos toca profundamente. Não é preciso ter medo. Nenhum.

Literatura Francesa

Arsène Lupin

Gosto muito de policiais, principalmente no verão. É comum munir-me de um livro da saga Hercule Poirot e lê-lo à beira da piscina ou estendida na areia da praia. Contudo, este ano, decidi trocar o detetive belga por um ladrão francês, e a praia pelo lar.

Arsène Lupin, Gentleman Ladrão (1905), de Maurine Leblanc, apareceu originalmente na revista Je Sais Tout, no intento de ser uma resposta “criminosa” a Sherlock Holmes. Teve tanto sucesso que se transformou numa série, agora editada em Portugal pela Relógio D’Água.

No primeiro volume temos vários contos que nos revelam não só a origem de Arsène, como alguns dos motivos que o levaram a querer ser este ladrão cortês e pouco violento, que gosta sobretudo da boa vida e do melhor que esta tem para oferecer. O estilo narrativo de Leblanc é muito bom. Com imenso ritmo, personagens cativantes e tramas sensacionais que nos mantêm presos às paginas. Faz realmente lembrar um pouco Sir Arthur Conan Doyle, quiçá menos obscuro.

Gostei muito deste livro. Por ora, não sei se será suficiente para me levar a querer ler os restantes números da coleção, contudo, é uma óptima alternativa a Agatha Christie, mais madura, mais excitante e mais honesta. Um óptimo companheiro de férias de verão e a minha primeira leitura da época estival. Recomendo.

Literatura Britânica · Literatura Francesa · Literatura Policial

Leituras de verão

Confesso que quando o verão chega o meu sistema desacelera e já só penso nas férias grandes e nas leituras que quero fazer durante as semanas mais paradas. É verdade que desde que fui mãe os meus momentos de lazer não são tantos como eu gostaria, no entanto há sempre oportunidade de abrandar e pegar em livros mais apropriados para esta altura do ano.

Os acompanhantes do BookTube sabem que julho é o mês da autora Jane Austen, falecida a 18 de julho de 1817. Por isso, este ano decidi participar na iniciativa e ler Mansfield Park (1814). A minha relação com Jane Austen é um pouco ambígua. Na universidade estudei Orgulho e Preconceito (1813), que gostei; mais tarde li Persuasão (1817), que muito me agradou; e há um par de anos li Emma (1815), de que não gostei nada. Como pretendo ler toda a obra da autora inglesa para conhecer os seus livros, acho que agora é o momento perfeito para pegar num deles. Vamos ver como corre.

No verão gosto muito de ler policiais. As aventuras de Hercule Poirot, de Agatha Christie, são um clássico nas minhas férias, porém, este ano, decidi trocar o detetive belga por um francês: Arséne Lupin, de Maurice Leblanc. A editora Relógio d’Água publicou recentemente alguns dos livros desta série, pelo que é uma bela oportunidade de finalmente descobrir este personagem de que oiço falar há tanto tempo.

E termino o período estival com um clássico francês que tem estado na minha mira há já algum tempo: Germinal (1885), de Émile Zola. Gosto muito da literatura francesa do século XIX e de Zola só li ainda O Paraíso das Damas (1883), de que gostei bastante. Germinal é considerada a sua obra-prima, pelo que será curioso lê-la.

E eis aqui os meus planos de leitura para este verão. Um clássico inglês, um clássico francês e um policial francês. Se quiserem dizer-me nos comentários abaixo quais são os vossos planos de leitura para os próximos meses, terei todo o gosto em lê-los. Desejo-vos óptimas leituras!

Literatura Norte-Americana

A Luz em Agosto

Sempre tive curiosidade em ler William Faulkner. Dois dos seus livros mais famosos, A Luz em Agosto e O Som e a Fúria, fazem parte de duas coleções que fiz: a velhinha Biblioteca Visão/Novis; e a mais recente Livros RTP. Surgiu a oportunidade de ler A Luz em Agosto devido à leitura conjunta do blog “O que vi do mundo”, e não hesitei.

A Luz em Agosto (1932) conta a história de Joe Christmas, um rapaz mestiço abandonado num orfanato e adoptado aos cinco anos por uma casal fanático religioso. Christmas não tem uma vida fácil. Vive no Sul dos Estados Unidos, no período entreguerras, onde o racismo (Jim Crow), a Lei Seca e o fanatismo cristão imperavam abertamente e guiavam as vidas da maioria das pessoas. Após alguns episódios de violência, acaba por fugir e torna-se um nómada, sem eira nem beira.

Este livro é um autêntico festival de violência física e psicológica. Todas as personagens são párias da sociedade, todas parecem esquecidas por Deus, e todas têm problemas que não sabem como resolver. As suas adversidades advêm da história e da cultura do local onde estão inseridas. A meu ver, Faulkner quis alertar de uma forma crua, rude e impiedosa para o que se passava no Sul dos Estados Unidos. Por exemplo, o que faz com que Christmas seja perseguido e perseguidor é o facto de achar que tem “sangue negro” e reagir conforme isso é recebido pelos outros (e por ele próprio).

Acredita-se que Faulkner baseou a sua história no Evangelho Segundo São João, tendo Christmas representado a figura de Jesus Cristo. É óbvio que algumas personagens são baseadas em figuras religiosas, o que dá uma sensação mais profunda de injustiça e desespero à história.

A Luz em Agosto não é para todos. Quando estava a lê-lo achava-o muito violento, uma realidade para a qual por vezes me custava regressar. Contudo, agora que já o terminei e digeri, creio que se trata de uma murro no estômago do leitor cuja dor permanece durante algum tempo porque não é fácil esquecê-la. Aliás, não é de admirar que a Academia Sueca lhe tenha concedido o Nobel da Literatura em 1949. Se hoje em dia o livro é impactante, faço ideia nos anos 30 do séc. XX.

Tags

Tag “Escritores”

Por vezes gosto de ler as Tags dos meus blogs preferidos, pois revelam um pouco os interesses literários das pessoas que sigo e a forma de como se iniciaram na leitura. Decidi, por isso, responder à Tag Escritores que encontrei no blog Literamenteblog.wordpress.com. Trata-se de seis perguntas (adaptadas à minha realidade e a última acrescentada por mim) sobre escritores.

  1. Que escritor te iniciou no mundo da leitura?

Alice Vieira. Esta antiga professora e escritora portuguesa é especializada em Enid Blython (Os Cinco e Noddy) e escreve sobretudo livros infanto-juvenis. Comecei a lê-la quando era adolescente e a verdade é que foram os seus livros que me abriram a porta da literatura. Títulos como Rosa, minha irmã Rosa (1979); Lote 12, 2º Fte (1980), Chocolate à chuva (1982); e Se perguntarem por mim digam que voei (2001) eram os meus preferidos. O que sobretudo me atraía em Alice Vieira era a sua escrita intimista e um profundo sentido de “portugalidade” com o qual muitas pessoas da minha geração se identificavam.

2. Um escritor que te perdeu.

Dan Brown. Li O Código Da Vinci (2003) quando saiu e gostei muito. Li mais três títulos seus e foi de mal a pior. A sua escrita não evolui, é pouco trabalhada e demasiado simples, e os seus personagens são quase caricaturas. As descrições que faz são realistas, mas não chegam para aguentar o livro.

3. Um escritor português e um escritor estrangeiro.

O meu escritor português preferido é Eça de Queirós. Já li quase toda a sua obra, faltando-me apenas três ou quatro títulos para a completar. Leio um livro seu por ano e estudei quatro deles na escola e na universidade. O meu conto favorito também é da sua autoria (A Aia). Nomear um escritor estrangeiro é mais complicado porque a possibilidade de escolha é muito maior. Talvez Emily Bronte ou Dostoievski.

4. Um escritor “confort zone”.

Agatha Christie. Apesar de eu achar que os seus livros têm alguns problemas, é rara a obra de sua autoria de que eu não goste. A série Hercule Poirot é das minhas predilectas.

5. Que escritor ressuscitarias dos mundo dos mortos?

A já referida Emily Bronte. É extraordinário que tenha escrito uma obra como O Monte dos Vendavais aos 27 anos. Que mais nos poderia ter deixado? Ressuscitá-la-ia para ficar a saber.

6. Que escritor convidarias para jantar?

Muitos, mas para referir um que ainda está vivo: Paul Auster. Apesar de eu ter uma visão do mundo diferente da sua, acho os seus livros maravilhosos e muito íntimos. Para além disso também é amante de cinema, pelo que creio poderia ser um jantar deveras interessante.

E aqui estão as minhas respostas à Tag Escritores (junho, 2021). Convido-vos a responder e, se quiserem, a deixarem as vossas repostas nos comentários abaixo. Até breve

Literatura Britânica

Someone at a Distance

Há cerca de um ano comecei a comprar clássicos da editora inglesa Persephone Books. Esta editora especializa-se na edição de livros esquecidos do início do século XX, escritos por mulheres ou com histórias sobre mulheres. Uma das suas imagens de marca são as capas completamente lisas e cinzentas, com interiores de padrões coloridos. No entanto, também editam as suas melhores obras com capas de reproduções de quadros, as minhas preferidas. Já li três títulos: Little Boy Lost, de Marghanita Laski; Cheerful Weather For The Wedding, de Julia Strachey; e Someone at a Distance, de Dorothy Whipple.

Someone at a Distance (1953), de Dorothy Whipple, é um dos livros favoritos de muitas fãs da editora Persephone e conta igualmente com uma alta pontuação no site Goodreads. À luz desta reputação decidi comprá-lo e lê-lo. O início é muito forte. A acção passa-se em Inglaterra, onde uma viúva rica decide contratar uma rapariga francesa para lhe fazer companhia e ajudá-la a aperfeiçoar a Língua. Louise, uma jovem simples e ambiciosa que não consegue ultrapassar o facto de o herdeiro da sua cidade a ter rejeitado pela sua falta de dinheiro, chega à casa da idosa pronta a desfrutar das novas regalias. Não faz muitos amigos por ser rude e politicamente incorreta, contudo, como tem bom gosto e é bonita, a senhora pede-lhe para ficar.

O que se segue é uma interessante reviravolta que passa o foco para a família do filho da senhora rica. Avery e Ellen são um casal feliz com dois filhos, o rapaz está na tropa e a rapariga numa escola interna feminina. Avery é sócio e trabalha numa editora e Ellen é dona de casa. Tudo está aparentemente bem, só que quando Louise chega para ficar hospedada em casa do casal, tudo muda.

Dorothy Whipple não é uma grande escritora, contudo a sua escrita é suficientemente razoável para nos manter presos à páginas a desejar saber como se desenrola a história. Além disso, a autora revela-nos factos interessantes sobre o final de um casamento na década de 50. Como se via o divórcio, ainda pouco habitual, como eram tratadas as pessoas divorciadas, como é que uma mulher conseguia sobreviver sozinha economicamente, etc. É igualmente curioso ver a reação dos filhos.

O meu grande problema com este livro é o final. Após passarmos 450 páginas a ler sobre o sofrimento das personagens, as inesperadas mudanças radicais na sua vida, e a destruição de uma família feliz, no fim, com a escolha que Ellen faz, parece que foi tudo em vão. Avery fez o que fez, e nada lhe acontece. Arrependeu-se porque foi apanhado e, no final, teve a recompensa que tanto desejava. Porém, o mais extraordinário, foi a completa marginalização dos filhos em relação ao futuro dos pais. Eles, que estiveram lá quando a mãe mais precisou deles, foram descartados quando esta decide o seu futuro.

Someone at a Distance poderia ter sido disruptivo, destrutivo, um marco na literatura “de mulheres” se tivesse tido a coragem de dar a Ellen o poder de continuar a enfrentar o mundo sozinha. No entanto, com este final tão fraco e demeritório, é apenas mais uma história de traição em que a mulher traída decide ficar ao lado do marido porque é “boa”, esquecendo a dignidade e o respeito próprio que a caracterizaram ao longo de toda a obra. Uma autêntica decepção.

Como referi no início, este foi o terceiro título que li da editora Persephone Books. Little Boy Lost foi o meu preferido, tendo saltado rapidamente para a lista dos livros da minha vida. Os outros dois, Cheerful Weather for the Wedding e Someone at a Distance, foram desilusões pelos fracos finais que apresentaram. Lerei os restantes que comprei na esperança de me trazerem um saldo mais positivo em relação a esta editora inglesa com uma missão tão interessante e edições tão bonitas e especiais.

Literatura Norte-Americana

O Céu É Dos Violentos

Flannery O’Connor (1925-1964) foi uma escritora norte-americana conhecida maioritariamente pelos seus contos. Estes tiveram tanta importância que hoje em dia o nome da autora dá título ao prémio de contos mais prestigiante dos Estados Unidos, o Flannery O’Connor Award for Short Fiction. No entanto, O’Connor também escreveu dois romances que eu já tive oportunidade de ler. Esta publicação é sobre o segundo, entitulado: O Céu É Dos Violentos (1960).

Flannery O’Connor nasceu na Georgia no seio de uma família irlandesa católica. O seu pai morreu prematuramente de lúpus, pelo que ela e a mãe foram viver para a quinta Andalusia, em Milledgeville, entretanto convertida em museu. O’Connor frequentou a escola pública local e mais tarde ingressou na Universidade Estatal Para Mulheres da Georgia, onde estudou sociologia e literatura inglesa. Começou a escrever contos para revistas e a ser notada pelos seus pares, especialmente por Andrew Lyttle, mais tarde seu editor e amigo.

É impossível desassociar a fé religiosa de O’Connor da sua literatura. Sendo católica praticante, escreveu mais de cem críticas literárias de textos religiosos para dois jornais diocesanos da Georgia. Esta devoção é patente nos seus dois romances.

Em O Céu É Dos Violentos conhecemos Mason Tarwater, um velho evangelista afastado da sociedade que tem como preocupação principal batizar e converter. Autodenomina-se profeta e quando a sua irmã e restante familia morrem num acidente de viação decide adotar o seu sobrinho-neto bebé para fazer dele o seu discípulo. No entanto, Rayber, o seu sobrinho adulto que também sobreviveu ao acidente, tenta resgatar o bebé, sem êxito. Francis é assim educado pelo profeta que lhe faz uma “lavagem cerebral” e o obriga a prometer que o enterra em solo sagrado quando morrer. Ora, Tarwater morre e Francis, após tentar cumprir a promessa, resolve pegar fogo à casa e ao velho, e fugir ao encontro do seu tio Rayber. Este recebe-o de braços abertos, disposto a ajudá-lo a esquecer o passado e os ensinamentos de Tarwater, contudo, Francis já está muito doutrinado e influenciado, percebendo que é muito difícil, senão mesmo impossível, libertar-se.

Para mim, este livro tem como temática o fanatismo religioso e como este afeta uma pessoa desde tenra idade. No entanto, e ao mesmo tempo, Flannery O’Connor expressa através deste fanatismo as suas convicções religiosas e a razão pela qual pensa que o catolicismo deve ser transmitido e assimilado. Francis teve uma vida rude, árdua e custosa para poder mostrar aos outros os ensinamentos de Cristo e, assim, salvá-los. Sacrificou-se, tal como Jesus e os apóstolos, por uma causa maior. Foi vítima de violência, de negligência e de maus tratos para poder cumprir o seu desígnio. Foi quase “um mal necessário” para salvar o resto da comunidade de uma vida secular e sem sentido.

O título da obra refere-se a um versículo do Evangelho Segundo S. Mateus (11:12): “Desde os dias de João Baptista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e violentos são os que se apoderam dele.” Estas palavras foram várias vezes interpretadas, sendo uma das explicações a de que quando se comete um ato de violência com vista ao bem maior, a vontade de Deus, esse ato de violência é justificado. Há uma cena óbvia no livro em que tal acontece, quando Francis ao tentar batizar Bishop o afoga sem querer. Trata-se de um homicídio acidental, mas, como o objetivo era o de batizar a criança para que ela entrasse no céu e se convertesse ao catolicismo, o ato foi justificado.

Há muito mais a dizer sobre O Céu É Dos Violentos. Na minha opinião, Flannery O’Connor é uma escritora brilhante que, em poucas páginas, nos faz sentir inúmeras emoções ao mesmo tempo e nos faz duvidar do que pensamos. As suas histórias são violentas, agressivas, cruéis, obscuras e satíricas. Não queremos parar de lê-las nem de nos espantarmos com a maturidade da sua escrita. Só temos pena que não tenha escrito mais pois, tal como o seu pai, o lúpus tirou-lhe a vida aos 39 anos. Ficam os contos e os livros que, a meu ver, deveriam ser mais conhecidos.