
Sempre tive curiosidade em ler William Faulkner. Dois dos seus livros mais famosos, A Luz em Agosto e O Som e a Fúria, fazem parte de duas coleções que fiz: a velhinha Biblioteca Visão/Novis; e a mais recente Livros RTP. Surgiu a oportunidade de ler A Luz em Agosto devido à leitura conjunta do blog “O que vi do mundo”, e não hesitei.
A Luz em Agosto (1932) conta a história de Joe Christmas, um rapaz mestiço abandonado num orfanato e adoptado aos cinco anos por uma casal fanático religioso. Christmas não tem uma vida fácil. Vive no Sul dos Estados Unidos, no período entreguerras, onde o racismo (Jim Crow), a Lei Seca e o fanatismo cristão imperavam abertamente e guiavam as vidas da maioria das pessoas. Após alguns episódios de violência, acaba por fugir e torna-se um nómada, sem eira nem beira.
Este livro é um autêntico festival de violência física e psicológica. Todas as personagens são párias da sociedade, todas parecem esquecidas por Deus, e todas têm problemas que não sabem como resolver. As suas adversidades advêm da história e da cultura do local onde estão inseridas. A meu ver, Faulkner quis alertar de uma forma crua, rude e impiedosa para o que se passava no Sul dos Estados Unidos. Por exemplo, o que faz com que Christmas seja perseguido e perseguidor é o facto de achar que tem “sangue negro” e reagir conforme isso é recebido pelos outros (e por ele próprio).
Acredita-se que Faulkner baseou a sua história no Evangelho Segundo São João, tendo Christmas representado a figura de Jesus Cristo. É óbvio que algumas personagens são baseadas em figuras religiosas, o que dá uma sensação mais profunda de injustiça e desespero à história.
A Luz em Agosto não é para todos. Quando estava a lê-lo achava-o muito violento, uma realidade para a qual por vezes me custava regressar. Contudo, agora que já o terminei e digeri, creio que se trata de uma murro no estômago do leitor cuja dor permanece durante algum tempo porque não é fácil esquecê-la. Aliás, não é de admirar que a Academia Sueca lhe tenha concedido o Nobel da Literatura em 1949. Se hoje em dia o livro é impactante, faço ideia nos anos 30 do séc. XX.