
*spoilers
Dostoiévski é um dos meus escritores preferidos. O Eterno Marido (1870) foi o quarto livro que li do autor.
Esta novella, publicada originalmente na revista literária Zarya, conta a história de dois homens que têm em comum a mesma mulher: Pável Pávlovitch é o marido, e Veltchanínov é um dos amantes. O livro começa a meio da narrativa (in media res) quando Pável vai subtilmente ao encontro de Veltchanínov para lhe dizer que a esposa morreu. Não está sozinho, leva a filha, Lisa, que Veltchanínov percebe logo que é sua. Pável trata mal a menina, e Veltchanínov sugere-lhe que a levem para casa de um casal seu amigo, conhecido por gostar muito de crianças. Apesar da mudança de ambiente e do bom tratamento, Lisa acaba por morrer.
Veltchanínov fica muito afetado com esta morte e passa a odiar Pável, mas este encontra-se numa escalada descendente, embebedando-se todos os dias e aparecendo em casa de Veltchanínov a altas horas da noite, sem ser convidado. Até que decide voltar a casar. Pede a Veltchanínov que vá com ele a casa da futura noiva. O encontro corre bastante mal. Pável é renegado pela menina, que se sente atraída por Veltchanínov. Após esta aventura, os dois homens regressam a casa de Veltchanínov, onde, a meio da noite, Pável o tenta matar com uma faca de barbear. Veltchanínov antevê o golpe e escapa apenas com um ferimento na mão.
Anos mais tarde, os dois acabam por reencontrar-se por acaso numa estação de comboio. Veltchanínov vai a caminho de casa de uma senhora que deseja muito conhecer, e Pável está com a sua nova esposa. Esta é uma mulher muito bonita e atraente, mas de más maneiras e conduta duvidosa. É óbvio que trai Pável com outros homens e está disposta a fazê-lo com Veltchanínov.
Apesar de pequeno, este livro é muito interessante. Tal como já referi em relação a outras obras do escritor, o grande talento de Dostoiévski é compreender e dissecar maravilhosamente a psique humana. Não admira que Freud o tivesse como grande inspiração. O leitor sente-se imerso nos pensamentos de Veltchanínov e percebe perfeitamente o que ele sente e para onde se dirige. É um homem gingão e masculino, sem pudor em relacionar-se com mulheres alheias, enquanto Pável é o que Dostoiévski chama de “eterno marido”, alguém que não consegue viver sem estar casado e a quem todas as mulheres traem com homens mais poderosos e aliciantes. Os comportamentos de um e de outro são aqui expostos de uma forma honesta, infantil e quase ridícula. Dois exemplos a não seguir, mas que proliferam na, então, sociedade moderna do final do século XIX.
Pouco mais há a dizer sobre Dostoiévski. Foi um dos grandes escritores visionários da sua geração cujos livros impactaram devido a uma moralidade intrínseca que nos faz refletir e, no fundo, desejar ser pessoas melhores. Recomendo vivamente.