(Este artigo contém spoilers)
Em 2011, quando Anna Gavalda decidiu traduzir Stoner (1965) para francês por achar que se tratava de um belo romance, estava a fazer mais do que permitir a quem falava a sua língua a oportunidade de o ler, estava a reavivá-lo para o mundo.
Stoner narra a história de William Stoner, um rapaz americano nascido na última década do séc. XIX, para quem a vida não reservara nada de significativo. William ajudava os pais na quinta que estes possuíam no Missouri e, quando o pai o incentiva a tirar uma licenciatura na recentemente aberta Escola Agrária, é com relutância que ele aceita. Já na universidade, William é obrigado a frequentar a cadeira de Literatura Inglesa, algo que lhe muda radicalmente a vida, pois toma a decisão de mudar de curso e de não regressar à quinta dos pais.
Esta obra de John Williams parece que tem tudo e, ao mesmo tempo, que não tem nada. A vida de Stoner é relativamente “normal” para os padrões da época. Acaba o curso na universidade, permanece nela como professor, casa com Edith, uma rapariga que mal conhece e que não lhe proporciona uma vida feliz, tem uma filha que a mãe monopoliza e que acaba por sofrer as consequências de um matrimónio infeliz, arranja uma amante que acaba por “fugir” da sua vida devido à vergonha de uma relação extraconjugal, e acaba os seus dias a lutar pelos seus princípios na universidade onde lecciona.
William é um personagem bastante passivo que parece não lutar por nada, a não ser pela literatura que ensina. E é este o epicentro da obra. Ao longo da história, os livros são a grande companhia de William, e é sempre neles que ele se refugia para obter o consolo que a sua triste existência lhe parece negar.
Numa narrativa magnificamente bem escrita, John Williams, ele próprio um professor universitário de Literatura Inglesa, escreve uma ode ao poder dos livros, dizendo nas entrelinhas que apesar de tudo o que possa ocorrer nas nossas vidas temos sempre o consolo da literatura para resgatarmos a nossa humanidade. E apesar de Stoner não ser um autobiografia creio que é altamente inspirada nas experiências de Williams, ou não tivesse ele querido partilhar o seu nome com a personagem principal da sua obra.
Aquando da sua republicação, passados 50 anos de esquecimento, tanto Stoner como os restantes livro de Williams ganharam um novo fôlego, tendo sido o presente romance considerado o melhor do ano de 2013 para os leitores da livraria britânica Waterstones. Não estranho. E, claro está, recomendo-o vivamente.