
No verão, tive a oportunidade de ir a Sevilha e, como ia lá passar uma semana, decidi levar um livro em espanhol para ler. Nunca tinha lido um livro em língua estrangeira no seu país de origem e devo dizer que foi uma experiência bastante interessante.
A obra que decidi levar foi La Familia de Pascual Duarte (1942) do prémio Nobel espanhol Camilo José Cela. Comprei-o precisamente numa viagem que fiz à Galiza em 2002, na loja da casa museu do escritor (infelizmente não tenho fotos para pôr no blogue). Passados tantos anos, achei que era a altura perfeita para o ler. Tinha algum receio de que a obra fosse complexa, mas não foi, de todo. Só melhorou a minha aptidão para o castelhano. O estilo de Cela é muito claro, rude e pragmático, expondo a crueldade por que passam as suas personagens. Neste caso concreto é Pascual Duarte, um homem que está na prisão à espera do dia da sua execução e nos conta, em retrospetiva, a vida que teve e as razões pelas quais ali se encontra.
Cela descobriu no existencialismo e realismo extremo uma forma de relatar o que ocorria na Espanha do pós-guerra dos anos 30. As personagens com que nos deparamos são sujas, incultas, vivem em angustia e sofrimento, e tentam sobreviver num mundo difícil que não lhes dá esperança. É uma espécie de critica social com o objetivo de escandalizar o leitor para que este se aperceba de como era a sociedade provinciana de então.
Gostei do livro. Acho que Cela escreve muito bem e toca de maneira violenta e quase cómica em várias feridas que Espanha tinha naquela época. É uma narrativa crua mas ao mesmo tempo honesta sobre um pobre coitado que tentou sempre encontrar o melhor caminho para a sua felicidade. Recomendo.