Quando eu era pequena, o filme da Disney Peter Pan era um dos meus preferidos. Adorava a personagem Wendy, que achava muito bonita e madura para a idade, e as peripécias do Capitão Gancho com Mr. Smee e o crocodilo.
Peter Pan ou o rapaz que não queria crescer, de J. M. Barrie, começou por ser uma peça de teatro, adaptada a romance pelo próprio Barrie, seis anos depois, com o nome de Peter Pan e Wendy. A personagem de Peter Pan terá sido inspirada em David, irmão do escritor que morreu enquanto fazia esqui um dia antes de cumprir os 14 anos. Barrie e a mãe sempre se recordaram dele enquanto criança pelo que Peter Pan ganhou a alcunha de rapaz que nunca cresceu.
Na história, Peter Pan terá cerca de 11, 12 anos e fugiu de casa quando bebé para não crescer. Levou consigo os Meninos Perdidos, de quem é lider, um grupo de crianças abandonadas pelos pais após terem “caído dos carrinhos de bebé”. Peter expulsa-os da Terra do Nunca assim que eles começam a crescer, pelo que o grupo nunca é o mesmo. Na ilha, também vivem os peles vermelhas, as fadas, os piratas e os animais selvagens. A fada mais famosa é Sininho, companheira de Peter Pan, e o capitão dos piratas é Gancho, o arqui-inimigo de Peter. O rapaz cortou-lhe a mão direita e deu-a de comer ao crocodilo, que agora deseja o resto. Ainda não conseguiu comê-lo por ser sempre denunciado pelo tique-taque de um relógio que engoliu.
O mais interessante na leitura do livro é o facto de compreendermos melhor as personagens. Na obra de Barrie, os protagonistas são muito mais profundos e intensos do que, por exemplo, nas adaptações cinematográficas da Disney. Peter Pan é um menino imaturo e convencido, que não sente grande empatia pelos outros. O Capitão Gancho e os pitaras são pessoas cruéis que matam sem dó nem piedade. Wendy tem um papel preponderante, pois serve de elo de ligação entre o mundo real e o imaginário, estando sempre consciente de onde veio e de quem é, e incentivando os Meninos Perdidos a saírem da ilha e a terem uma mãe e uma vida normal. Aliás, nesta obra, as mulheres, principalmente Wendy e a mãe, Mrs. Darling, são retratadas como a voz da razão e da responsabilidade. É com elas e por causa delas que a história se resolve e todos têm um final feliz. Também é curioso que, no final, Peter regresse sempre para levar para a Terra do Nunca as filhas e nunca os filhos. Nenhuma das personagens masculinas tem boa reputação. Nem Mr. Darling, que acaba por ser apresentado como alguém snob e demasiado preocupado com a opinião dos outros.
Gostei muito deste livro. Barrie compreende perfeitamente as crianças e o mundo infantil, e consegue expô-los de uma forma divertida e direta que reflete a admiração que sentia pela família Llewelyn Davies, inspiração da sua obra. Apesar de ser, por vezes, um pouco violento, Peter Pan é um livro juvenil original e engraçado. Recomendo.
