Para mim, o ano de 2015 foi marcado por dois grandes lançamentos literários: o segundo livro de Harper Lee, que há muito estaria escondido no cofre de um banco, e uma nova versão de uma história de Hercule Poirot, maior personagem de Agatha Christie, pelas mãos de Sophie Hannah. O primeiro deixou um pouco a desejar, o segundo foi uma vitória literária.
Como já devem ter percebido, eu sou uma grande admiradora de Agatha Christie, principalmente da sua criação fetiche, Hercule Poirot. Por isso, quando soube que ia sair um novo livro do detetive pela mão de uma escritora policial contemporânea fiquei um pouco cética. A principio não quis ler a adaptação com medo de estragar a ideia que tinha de Hercule Poirot, contudo, depois de ter visto um exemplar de bolso com uma capa irresistível e frases encorajadoras de jornais reputados foi impossível ficar indiferente.
A ideia original não foi trazer Poirot para a atualidade, pelo contrário, foi mantê-lo no seu período de início do século XX e tentar arquitetar um mistério parecido aos da própria Agatha Christie. O resultado foi excelente: um triplo homicídio num prestigioso hotel de Londres, com vários suspeitos, motivos controversos e conspirações inexplicáveis.
A narrativa está muito bem conseguida. Percebe-se que Sophie Hannah estudou a fundo os livros de Agatha Christie e que tentou construir o seu com uma estrutura semelhante, sem nunca esquecer, claro está, as características distintivas de Poirot, tanto a nível fisico como psicológico. A trama tem muitos volte-face, como seria de esperar num romance policial, o que faz com que o leitor se sinta sempre preso ao livro. Sophie Hannah assegura que não se perde o fio à meada ao explicar continuamente o que ocorre, algo que Agatha Christie nem sempre faz, dando mais liberdade ao receptor.
Apesar de a versão estar bem feita, vê-se que não é igual às histórias de Agatha Christie. Os leitores ficarão agradados com o livro, no entanto, aperceber-se-ão de que este Poirot é, quiçá, um pouco mais nervoso, autoritário e menos gentil do que aquele a que estamos habituados. Pode ser o cunho pessoal de Hannah ou apenas a forma de como ela vê a personagem. Seja como for, aconselho vivamente a leitura desta tentativa bem-sucedida de engendrar um novo crime para o detetive desvendar, quanto mais não seja para vermos como um autor contemporâneo dá vida a uma personagem que merece indiscutivelmente o reconhecimento do público do século XXI. Gostei muito.
