Literatura Britânica

O Agente Secreto

O Agente Secreto é um romance de 1907 da autoria do escritor polaco, naturalizado inglês, Joseph Conrad (O Coração das Trevas, Lord Jim). A história tem lugar em Inglaterra, onde um pequeno comerciante de uma loja suspeita faz serviços secretos para uma embaixada sem o conhecimento da sua familia, apenas do grupo de anarquistas que o segue. Nesta missão em particular, Verloc é chamado pelo primeiro secretário da embaixada que, após vários anos de trabalho e lealdade para com a causa, diz-lhe que os serviços secretos não são uma instituição filantrópica e que sem acção não há pagamento. Por isso, para justificar a sua utilidade, pede-lhe que elabore uma “actividade com toda a insensatez chocante de uma blasfémia gratuita” e que faça explodir o edificio do Observatório de Greenwich, simbolo da ciência (“fetiche sacrossanto actual”), da classe média “estúpida” que se deixa levar pelos sucessivos governos que lhes atira areia para os olhos e alvo preferencial dos anarquistas. Com medo das consequências do acto, mas sem coragem para desistir porque precisa do dinheiro, Verloc decide usar o cunhado Stevie (rapaz novo e deficiente mental que só quer agradá-lo e cair-lhe nas graças), que sustenta juntamente com a mulher e a sogra, para executar o plano. Porém, como o rapaz não é expedito como os demais, tropeça com a bomba na mão e faz-se explodir em plena rua, um pouco antes de chegar ao Observatório de Greenwich. Após o incidente, Verloc é seguido pela policia, que encontra a sua morada na etiqueta de um pedaço do casaco da vitima, e prepara um plano para fugir com a mulher. No entanto, Winnie, ao saber da verdade, que o marido é um agente secreto e que por causa dele o seu irmão, por quem ela nutria um carinho especial, está morto, perde a cabeça e esfaqueia-o até à morte. 
Graças a Ossipon, companheiro anarquista de Verloc, Winnie consegue fugir, para escapar à forca, mas acaba por suicidar-se a bordo do barco que a leva para a outra margem do canal da mancha. O livro termina com Ossipon (apelidado de Doutor) devaneando pela rua. Após uma conversa com o Professor, outro membro do grupo, percebe que o crime foi abafado pela policia e que os seus companheiros anarquistas pensam que foi esta que matou Verloc. Por causa disso, acham que a humanidade não tem remédio e que a sua mediocridade justifica a escolha dos “patetas que mandam”. No entanto, como Ossipon sabe o que realmente aconteceu, começa a pôr tudo em causa e sente-se doente ao pensar que a sua “carreira revolucionária, sustentada pelo sentimento e confiança de muitas mulheres, estava ameaçada por um mistério impenetrável – o mistério de um cérebro humano que pulsa equivocamente ao ritmo de frases jornalísticas.” É um fraco comparado com o Professor que continua a lutar. Um anarquista abalado por alguém que considerava fraco e que cometeu um acto forte, e vice-versa.
O Agente Secreto, ao contrário do que a capa da edição da chancela da Bertrand, 1117, pode fazer parecer não é um livro de mistério convencional. Trata-se de um thriller “politico” inteligente que prende o leitor do inicio ao fim. A linguagem não é complicada (apesar de a tradução e revisão portuguesas denotarem algumas falhas) e a estrutura do livro é bastante fácil de seguir sem que tenhamos sempre de estar sempre a recuar para termos a certeza de que nada nos escapou. Embora não tão impactante como o O Coração das Trevas, é um livro forte, interessante, hábil, que nos faz reflectir sobre as regras sociais que nos regem e a nossa disposição ou vontade de as mudar ou de as seguir. Gostei muito.  

Deixe um comentário