Literatura Britânica

Scottish Folk and Fairy Tales

Ainda no rescaldo da minha viagem à Escócia, acabei de ler este livrinho (que comprei numa das principais ruas de Glasgow e que me custou apenas dois euros numa loja da Oxfam, uma ONG que luta contra a pobreza e injustiça nos países subdesenvolvidos), e que é nada mais, nada menos do que uma compilação dos principais contos tradicionais escoceses.
Dividido em cinco partes (magia; monstros e gigantes; aparições, visões e bruxas; um clássico vitoriano e uma anedota especial) esta antologia é uma boa introdução à cultura escocesa e ao inicio da sua literatura, que depois nos veio a dar grandes nomes como Walter Scott, Robert Louis Stevenson ou Arthur Conan Doyle (que é, aliás, autor de um dos contos, intitulado Through the veil).
Gostei muito de ler esta edição da Penguin Classics, não só porque me fez sair da rotina dos romances, como também, e sobretudo, me ajudou a conhecer e a compreender um pouco mais o espírito escocês.
Para vos matar um pouco a curiosidade, deixo-vos uma tradução que fiz do conto The BrownieFerneden (é um pouco grande, mas vale a pena ler).
Enjoy.

Já houve muitos elfos conhecidos na Escócia, e já se escreveram muitas histórias sobre o Elfo de Bodsbeck e o Elfo de Blednock, contudo, nenhuma delas é tão bonita como a história que eu vos vou contar sobre o Elfo de Ferneden.
Ferneden era uma quinta, que ganhou o nome devido ao pequeno vale, ou monte, no cimo do qual se situava, e, pelo qual, quem quisesse ir para a sua casa tinha de passar.
Dizia-se que nessa quinta vivia um elfo que nunca aparecia durante o dia, mas que era visto por vezes à noite, como uma sombra desajeitada, a roubar coisas, andando de árvore em árvore e tentando manter-se fora da vista das pessoas, sem nunca, mesmo nunca, magoar ninguém.
Como todos os elfos que são deixados em paz e tratados como deve ser, também ele não magoava ninguém, e só queria retribuir de forma positiva aqueles que precisavam da sua ajuda. O dono da quinta dizia muitas vezes que não sabia o que faria sem ele, pois se por acaso deixava trabalho por fazer ao fim do dia, este aparecia feito de manhã, como colher milho ou peneirá-lo, metê-lo em sacos, aparar a relva, lavar a roupa, tratar do jardim ou arrancar as ervas daninhas. Tudo o que o dono da quinta e a mulher tinham de fazer era deixar a porta do celeiro ou do estábulo aberta antes de irem para a cama, e uma garrafa de leite fresco à entrada para o elfo beber. Depois, quando acordassem no dia seguinte, a garrafa estaria fazia e o trabalho estava terminado, e muito mais bem feito do que se tivessem sido eles a fazê-lo.
No entanto, e apesar de tudo isto que provava que a criatura era muito gentil e bondosa, todas as pessoas que lá viviam tinham medo dele e preferiam dar uma volta maior no escuro em redor da quinta, quando vinham do mercado ou da missa, do que atravessar o vale e correr o risco de dar de caras com ele.
Eu disse que todos tinham medo dele, mas não é verdade, a esposa do dono da quinta era tão doce e generosa que não tinha medo de nada, e por isso, sempre que punha a garrafa do lado de fora da porta, enchia-a com o melhor leite que tinha e adicionava-lhe uma colher de natas, dizendo,
– O elfo trabalha tanto para nós, sem pedir nada em troca, que merece a melhor refeição que lhe possamos dar.
Uma noite, a gentil senhora adoeceu gravemente e todos temeram que ela morresse. É claro que o marido ficou muito preocupado, mas os criados também ficaram, pois ela era uma patroa muito boa e eles viam-na quase como uma mãe. Porém, eram todos muito novos e nenhum sabia grande coisa sobre doenças, pelo que todos concordaram que seria melhor enviar alguém a casa de uma velhota que viva do outro lado do rio e que era conhecida por ser uma enfermeira muito prendada.
Mas, quem iria? Era esse o problema. Já era noite cerrada e o caminho até à casa da velhota ficava na outra ponta do vale. E, quem quer que viajasse nessa estrada corria o risco de se encontrar com o elfo.
O dono da quinta teria ido de boa vontade, não fosse o facto de não se atrever a deixar a mulher; por sua vez, os criados tinham formado vários grupos na cozinha, uns dizendo aos outros quem deveria ir, mas sem que ninguém se voluntariasse.
Mal sabiam eles que a causa de todo aquele pânico, um homenzinho pequeno, esquisito, feio, peludo, com uma longa barba, olhos vermelhos, marreco, com pés chatos que faziam lembrar os de uma rã e braços tão longos que tocavam no chão, mesmo quando ele se mantinha de pé, se encontrava a poucos metros deles, a ouvir a sua conversa com uma expressão curiosa, por trás da porta da cozinha.
Tinha aparecido, como sempre, do seu esconderijo no vale para ver se havia alguma tarefa para fazer e para beber a sua garrafa de leite. Percebeu, pela porta escancarada e pelas janelas iluminadas, que havia algo de errado dentro da quinta, que normalmente àquela hora já estava às escuras, quieta e em silêncio, e aproximou-se sorrateiramente da entrada para tentar descobrir o que era.
Quando entendeu pela conversa dos criados que a patroa, que também ele adorava, e que sempre fora tão generosa para com ele, estava doente, ficou com o coração destroçado. E quando ouviu que nenhum dos patetas dos criados enfrentaria o seu medo absurdo para ir buscar a enfermeira ao outro lado do vale, ficou cheio de raiva e fúria.
– Tolos, idiotas, cobardes! – murmurou para si próprio, batendo com os pés chatos e compridos no chão. – Falam como se um corpo estivesse pronto a tirar-lhes um pedaço assim que dessem de caras com ele. Se soubessem o trabalho que me dá desviar-me do seu caminho, não seriam tão tontos. Mas, se continuarem assim, a bondosa senhora vai morrer debaixo dos seus narizes. Logo, tem de ser o elfo a tomar a iniciativa.
Com estas palavras, levantou o braço e pegou numa capa castanha do dono da quinta que estava pendurada num cabide da parede. Colocando-a por cima da cabeça e dos ombros, de forma a esconder a estranha forma do seu corpo, correu até ao estábulo e preparou e selou um dos cavalos que lá se encontrava.
Quando terminou, levou o cavalo até à porta e montou-o.
– Se alguma vez correste rápido, corre rápido agora – disse ele, e foi como se o animal o entendesse, pois relinchou, abanou as orelhas e correu como uma seta em direcção à escuridão da noite.
Pouco tempo depois, como num abrir e fechar de olhos, o Elfo chegou a casa da velhota.
Ela estava deitada, a dormir, mas ele bateu na janela com tanta força que a acordou. Quando ela se levantou e encostou o rosto enrugado ao vidro para perguntar quem era, ele encolheu-se e disse-lhe ao que ia.
– Tendes de vir comigo, Boa Enfermeira, e depressa – ordenou ele, numa voz profunda e áspera, – pois a esposa do dono da quinta está muito doente e não há lá ninguém que a possa salvar.
– Mas como vou para lá? Alguém enviou uma carruagem? – perguntou a velhota ansiosa, pois, tanto quanto podia perceber, não havia mais ninguém à sua porta a não ser um cavalo e o respectivo cavaleiro.
– Não, ninguém enviou carruagem nenhuma – respondeu o Elfo, de forma clara. – Tenderás de subir para cima do cavalo e agarrar-vos à minha cintura, e prometo-vos que vos deixo em Ferneden sã e salva.
A voz dele era tão dominadora que a velhota não se atreveu a recusar a ordem. Para além disso, já tinha andado muitas vezes de cavalo quando era jovem, por isso, vestiu-se de maneira adequada, e depois de sair e de trancar a porta, montou o cavalo e agarrou-se ao estranho de capa escura.
Nenhum disse nada durante a viagem. Depois, ao aproximarem-se do vale, a velhota sentiu-se a perder a coragem.
– Achais que poderemos encontrar o Elfo? – perguntou ela, timidamente. – Não gostaria nada de correr esse risco, pois as pessoas dizem que ele é uma criatura que dá azar.
O seu companheiro riu-se.
– Não tenhais medo, pois juro-vos que esta noite não verás ninguém mais feio do que o estranho ao qual ides agarrada.
– Oh, então não há problema – respondeu a velhota, aliviada, – pois, embora eu ainda não tenha visto o vosso rosto, já percebi que sois um homem bom, por vos terdes preocupado com aquela pobre mulher.
Ela voltou a ficar em silêncio até passarem pelo vale e o cavalo ter chegado até à quinta. Em seguida, o cavaleiro desceu e, virando-se para ela, ajudou-a cuidadosamente a desmontar com os seus braços compridos e fortes. Ao fazê-lo, a capa escorregou e revelou o seu corpo pequeno, marreco e esquisito.
– Meu Deus! Mas que espécie de homem sois vós? – perguntou ela, olhando para o rosto dele através da luz fraca e cinzenta do amanhecer que começava agora a despontar. – Porque são os vossos olhos assim tão grandes? E o que fizestes aos vossos pés? Parecem mais pés de sapo do que de outra coisa qualquer.
O estranho homem voltou a rir.
– Caminhei muito durante toda a vida sem a ajuda de um cavalo, e ouvi dizer que andar demais deforma os pés – respondeu ele. – Mas, não percais tempo, Boa Enfermeira, entrai em casa e, se por acaso alguém vos perguntar quem vos foi buscar tão depressa ao outro lado do rio, dizei que havia falta de homens e que, por isso, teve de ser o Elfo de Ferneden a fazê-lo.

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