Literatura Norte-Americana

Homem na escuridão

Um murro no estômago. Mais uma vez foi este o efeito que um livro do escritor norte-americano Paul Auster teve em mim. E que bela sensação! Ser retirada do meu pequeno mundo, da minha comfortzone para ser arrastada para o conflito virtual de um homem que já não espera nada da vida e que conta histórias inventadas a si próprio para se distrair, adormecer ou, simplesmente, fazer o tempo passar mais depressa.
August Brill é um velhote de setenta e dois anos que recupera de um acidente de viação em casa da filha, e que, para se abster de pensar na morte da mulher, no divórcio da filha e no assassinato violento do namorado da neta no Iraque, inventa histórias a si mesmo. Todavia, essas histórias acabam sempre por tocar nos pontos que Bill tenta esquecer. Um homem que, de súbito, se vê encurralado numa América assolada por uma segunda guerra civil e que é obrigado a matar Bill (o autor da história) para sobreviver e salvar a esposa. Um suicídio imaginário que não chega a acontecer porque Bill decide matar a sua personagem fictícia. Mudança de ideias por causa de uma suposta esperança no futuro?
Nessa noite, e por acaso, a neta bate à porta do seu quarto e começa a falar com o avô sobre o passado da família. Uma conversa franca (e bastante liberal) onde os dois têm a oportunidade de desabafar sobre os seus fantasmas, de se conhecerem melhor e de se consolarem mutuamente. De madrugada, chega a filha que propõe o pequeno-almoço habitual. Bill interrompe-a e pede-lhe tudo o que tem direito numa refeição à lavrador. Os dois comentam o livro que a filha está a escrever sobre a poetisa (muito má, na opinião das personagens) Rose Hawthorne e Bill, antigo critico literário, diz-lhe que no meio de tanta porcaria houve um verso que verdadeiramente sobressaiu: Enquanto o bizarro mundo continua a girar.
É com este pensamento que Auster nos deixa num livro escrito em 2007 (em plena administração Bush e com laivos explícitos bastante críticos em relação à guerra do Iraque). Um pensamento que, depois de um livro pesado que nos afoga na mente cansada, mas lúcida, de uma homem velho e impotente, nos dá esperança e nos abre os olhos para a ideia de que aconteça o que acontecer neste estranho mundo, a vida continua, as pessoas seguem as suas vidas e nada, realmente nada, mudará isso.
Uma esperança que não nos deixa indiferentes. Uma esperança que dói. Mas, ainda assim, uma esperança.

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